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Onde Hitchcock errou a mão?

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CINEVIVENDO: O cinema por Caetano Veloso (parte 2)
Postado por Sílvio Osias em 06 de outubro de 2009 às 16:28

(continuaçao)

- Costumo dizer a um amigo, crítico de cinema aqui em João Pessoa, que Hollywood faz mal a ele. É uma brincadeira para comentar a dificuldade que muitas pessoas têm em relação aos filmes europeus. Acham que eles são chatos, se incomodam com a falta de linearidade da narrativa. Falando sério: você acha que, de um modo geral, os filmes americanos desempenharam este papel negativo na formação do nosso público?

The Brown Bunny- Às vezes me exaspera o vício das sequências de perseguição de automóveis na parte final dos filmes. Também me irrita a aprovação prévia que mesmo coisas terrivelmente mal-feitas recebem de um público narcotizado. Mas fui também, na esteira do tropicalismo e de Godard, um militante pró-Hollywood e anti-filme europeu cabeça. De modo que amo Je Vou Salue, Marie e ET – e posso me envolver com filmes como The Brown Bunny (um dos melhores filmes contemporâneos) ou O Céu de Suely. Paradoxalmente, com a morte dos grandes estúdios, Hollywood se tornou mais hegemônica no mercado mundial do que nunca. A cerimônia do Oscar foi multiplicada pela TV (que se supunha ter vindo para acabar com o cinema); a indústria de celebridades hollywoodianas é mais insidiosa do que quando tudo era um todo fechado. Meus filhos de 17 e 12 anos têm dificuldade até em aceitar ouvir francês ou italiano num filme. Mas também têm dificuldade para aceitar filmes americanos de antes dos anos 80, se não 90. Eu acho todos os planos em preto e branco de Elogio do amor, de Godard, deslumbrantes. É difícil mostrar algo assim a meus filhos menores ( Moreno adoraria). Mas também é mais fácil fazer Tom assistir a Je Vous Salue, Marie do que a Se Meu Apartamento Falasse: fiz a experiência e tem um aspecto crucial: Marie é colorido e moderno; Apartamento é velho e em preto e branco. Acho a sequência inicial de 3 Macacos sensacional; você não vê algo daquele nível em Beleza Americana. Detesto Matrix com suas pretensões filosóficas e esse novo Batman barulhento e incompreensível. Prefiro os filmes comerciais brasileiros – e alguns argentinos: O Filho da Noiva tem umas piadas ótimas. Mas La Ciérnaga, nada comercial, é muito melhor. Adoro 2 Filhos de Francisco, Se Eu Fosse Você, O Casamento de Romeu e Julieta, Mulher Invisível, Meu Nome Não é Johnny. E também Cidade de Deus, Tropa de Elite. Carandiru é desigual e um tanto chato. Tenho carinho especial por Bendito Fruto. E admiro coisas mais “européias”, menos americanas, como Cinema, Aspirinas e Urubus. Cidade Baixa tem os dois baianos e a moça num ambiente fortemente captado. Mas me aborrece a atitude naturalista de ostentar exibição da realidade “crua”, “má”, “degradada” – é um problema que vejo também em Amarelo Manga, apesar do que tem de bonito. Em suma, gosto de Almodóvar (A Lei do Desejo, Matador, Mulheres à Beira e Fale com Ela são muito bonitos). Ele foi, por um longo tempo, o grande cara do cinema europeu – e se mantém europeu. Besieged, de Bertolucci é muito bonito (para mim, o melhor filme dele). Filmes de Scorsese como Gangs de Nova Iorque e Idade da Inocência são ruins, falsos. Não dá para imitar Visconti.

- Você tinha cerca de 18 anos quando conheceu João Gilberto e a Bossa Nova, o mesmo momento em que os jovens cineastas franceses surgiram com a Nouvelle Vague. Eu sei muito bem o que você enxergou em João e que possibilidades a música dele abriu em sua vida. Houve algo parecido com os filmes? Milton Nascimento, por exemplo, resolveu compor no dia em que viu Jules et Jim. E você? Godard mudou a sua vida?

- Gostei de Jules et Jim mas não a ponto de mudar meu rumo. Godard, sim, foi influência definidora. O tropicalismo não existiria sem ele, sem meu amor pelo cinema dele. Anna Karina fazendo flashes de musical hollywoodiano em Uma Mulher é uma Mulher e depois ilustrando com sua cara cotidiana Tu t’laisses aller de Aznavour foi lição para mim; eu não conhecia Andy Warhol; meu filtro pop veio com Godard, antes de vir dos Beatles.

- Eu sei que você prefere Godard a Truffaut. Você concorda com quem acha que a filmografia de Truffaut acabou desmentindo o espírito da Nouvelle Vague? E que Godard, este sim, é que se manteve fiel ao que eles sugeriam ali na virada da década de 50 para a de 60?

Les Quatre Cents Coups- Godard é uma “nouvelle vague”. Um inovador genial. Les Quatrecents Coups é maravilhoso e livre – e dizem que Tirez Sur le Pianiste é godardiano (Godard o homenageia em Uma Mulher é uma Mulher); Jules et Jim é ótimo, mas todos os outros filmes dele que eu vi, achei fracos.

- De qualquer maneira, saindo dos filmes para o exercício da crítica e misturando as duas coisas, a gente não pode esquecer da imprescindível conversa de Truffaut com Hitchcock, mais importante talvez do que alguns dos filmes que realizou. E, já que falei em Hitchcock, que é meu cineasta preferido, eu tinha a curiosidade de saber se, em algum momento, você fez parte do grupo dos que reagiam tão mal a cada novo filme do mestre do suspense, mas você já respondeu que sempre gostou dele, antes da revisão da sua obra pelos europeus…

- Sempre gostei, como já disse. Eu morava em Londres quando ele fez Frenesi. Fiquei maravilhado com a nobreza e beleza desse filme. O humor macabro da culinária da mulher do policial, o nu furtivo da moça no hotel, tudo ali traz de volta – com uma atualização juvenil – o grande Hitch, que estava um pouco abaixo do próprio nível em Topázio e mesmo em Cortina Rasgada (de que eu gosto). Quanto ao livro de Truffaut, li em Londres e achei magnífico. É uma conversa riquíssima: Hitch dá uns olés em Truffaut, que, no entanto, está sempre brilhantemente atento para características reveladoras do mestre. A gente aprende com aquele livro. Quero relê-lo.

- Quando penso em Hitchcock, lembro sempre dos cineastas que produzem intensamente, um filme por ano, às vezes dois, fazem filmes muito bons, outros nem tanto, mas que acabam construindo uma trajetória admirável. Talvez a gente possa enquadrar Ford neste perfil. Quem mais? Spielberg e Scorsese caberiam, se viermos para o cinema atual? Também há neles, mais em Spielberg do que em Scorsese, uma grande popularidade. Como havia em Hitchcock e em Ford…

- Sim, Ford. The Man Who Shot Liberty Valence, My Darling Clementine, Vinhas da Ira. Mas será que não devíamos falar em Billy Wilder? De A Mundana a Cupido Não Tem Bandeira (e depois), ele apresenta uma enfiada de maravilhas de tirar o fôlego. Quanto a esses mais novos, sim, Spielberg fez um nome e tem um corpo de trabalho. Mas, embora eu goste muito de ET e de Contatos Imediatos (onde Truffaut atua), acho seus filmes em geral frios, com enquadramentos duros e pouco convincentes, com figurino parecendo novo e recém-lavado (e passado), e ridiculamente manipuladores.

A cor púruraA Cor Púrpura não me provocou outro sentimento além de vergonha (Moreno , que era criança na época, ficou triste comigo porque eu disse isso: ele havia chorado vendo). Não gosto do filme que saiu de um projeto de Kubrick (Inteligência Artificial) nem do filme sobre a Segunda Guerra nem Prenda-me se For Capaz – nem mesmo daquele antigo em que um caminhão persegue um automóvel. A idéia é bonita mas a feitura é de uma grande frieza. E o que dizer do Aviador de Scorsese? É terrível ver Leonardo di Caprio parecendo um menino de 8 anos fazendo Howard Hughes. E aquela moça fazendo Ava?!!!!! Tudo é ruim. Os diálogos não têm vida. Nem “wit”. Só se salvam as cenas de aviões, voos em grupo, parecendo o clip (magnífico) que Mauro Lima fez para minha gravação com Mautner da música genial deste (meu clip brasileiro favorito e um filme espetacular). Mas há também filmes bons: Taxi Driver, Raging Bull, After Hours. E o texto dele sobre Glauber é uma bela homenagem, embora repita a escolha furada dos estrangeiros: O Dragão da Maldade – um filme de que não consigo gostar muito.

- Confesso que não entendi as restrições que você fazia a Woody Allen quando tive contato com elas pela primeira vez. Hoje, continuo gostando bastante de alguns filmes dele, mas já não tenho a mesma admiração que tinha no final dos anos 70. Com você, parece que ocorreu o inverso…

- Fizeram uma espécie de festival Woody Allen no TeleCine Cult. Vi por acaso: passavam os filmes nas horas em que vou me deitar. Gostei de todos: dos que revi e dos que nunca tinha visto. Mas sei que, ter saído de casa para ir ao cinema era um pouco demais para filmes tão estreitos. A TV é perfeito veículo para Allen. O primeiro filme dele que vi foi Boris Grushenko e achei que parecia um programa de TV meio malfeito. Depois ele melhorou a estrutura dos roteiros e o uso da câmera. Passou a fazer filmes melhores. Mas sempre muito anti-sixties, um tanto reacionário. Muito hétero, muito reverente com os amantes de ópera que vivem no Upper East Side, muito chegado a uma decoração creme por trás de roupas beje. Careta até não poder. Gay, maconha, rock, Bob Dylan, tudo isso é desprezado por ele. Eu entendo: vemos peças da Broadway pós-rock (o pop pós-rock que se usa na Broadway) e pensamos em quão genial eram Porter, Gershwin e Rogers: essas baladas que se ouvem nos espetáculos novos (dos 70 para cá) são chatérrimas – o mesmo se dando com os desenhos animados em longa-metragem: em Branca de Neve, quando os personagens param para cantar é um alumbramento; em Aladim ou Moisés, Príncipe do Egito, é um bocejo: são uma mistura de campo com igreja, um negócio que sempre parece que a Mariah Carey vai cantar, com dramaticidade negra de igreja mas abastardada, sem a malícia e a urbanidade, a inteligência de uma canção de Berlin ou Kern. Então é gostoso que um cara velho seja sincero a esse respeito. E muitas das piadas (”one liners”) são excelentes. Mas sempre se revela uma visão estreita. E o público que o adorava quando ele era uma novidade com filmes ruins não gosta nem dos bons que às vezes ele faz. Meu filme favorito dele é Bullets Over Broadway: é uma comédia de verdade, Diane Wiest está genial (nada da chatice que ela apresenta quando faz personagens “sensatos” em filmes de outros diretores: ela é falsa, parece uma maluca fingindo que é sã), tem situações ótimas. E Allen tem a grande elegância de dar a seus filmes a duração que os filmes tinham quando ele era menino. Talvez isso contribua para seu relativo fracasso comercial nos EUA: o público exige supersized movies. Os produtores descobriram que o povo pensa que se um filme não dura mais de duas horas e quinze, ele não está sendo “bem servido”. É como um restaurante vulgar – e como o ar condicionado dos cinemas: os idiotas pensam que quanto mais frio, melhor. Allen faz filmes do tamanho de filmes. E adoro Nova Iorque – e ele a conhece e sabe filmar a arquitetura da cidade. Além disso, ele é o grande herdeiro do cinema novaiorquino, independente de Los Angeles. Ele não é nenhum Cassavetes, mas merece estar ligado à tradição que este iniciou. É um careta, um cineasta pequeno, mas é um cara legal, com frases brilhantes, com algumas cenas espetaculares como ator – e canta muito, muito bem na cena curta em que o faz, em Everybody Says I Love You. Considero uma conquista imensa ele ter o “final cut” dos seus filmes.

- Outro dia, vi Scorsese falando de O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro. Se não entendi mal, ele associa o personagem Antônio das Mortes aos cowboys de Leone, o que seria um equívoco porque Antônio das Mortes surgiu em Deus e o Diabo na Terra do Sol, quando ainda não tínhamos os westerns do italiano. Acredito no inverso: que Leone se inspirou em Glauber. De todo modo, acho que aqueles westerns de Leone são inaceitáveis para os cultores dos grandes westerns americanos. Nem Scorsese me convence do contrário…

O Dragão da Maldade contra o Santo guerreiro- Esse pessoal de língua inglesa não consegue nem ver Deus e o Diabo: aquilo é inorgânico para eles, não chega ainda a ser alguma coisa. O falso “Dragão” agrada. Leone se inspirou em Glauber para fazer aqueles filmes chatos (só gosto de Era uma Vez na América: ali, até Morricone vai fundo na versão de Amapola). Mas, vendo Inglorious Bastards, esse fascinante filme novo de Tarantino, gosto de todos os trechos de Morricone escolhidos por ele. E também (muito!) de David Bowie (de quem nunca fui fã). Tarantino – e toda a formação do gosto do pessoal da geração dele – dá, com seu amor sincero – legitimidade estética à música de Morricone e às cenas de Leone.

- De vez em quando leio os textos que você escreveu sobre cinema. Você exerceu a crítica e depois se tornou um artista. Não o cineasta que num momento desejou ser, mas um compositor popular de grande prestígio. Você continua movido por um admirável espírito crítico. Como é que você lida com os seus críticos?

- Sou um pouco chato porque entro em competição com eles. Corrijo o que eles escrevem, implico com desaprovações desavisadas. Mas gosto de brincar com isso. Nem sempre a reação nasce de uma raiva verdadeira. Na verdade, me considero muito mimado pela opinião geral. Embora veja sempre mais os equívocos de muitas aprovações – e me excite mais com quaisquer desaprovações.

- Você dirigiu um filme, O Cinema Falado. O tipo de cinema com o qual você sonhava é o que temos no filme que você dirigiu?

- Claro que há muito do que desejo fazer em O Cinema Falado. Mas não é o filme que sonhei. É um exercício experimental (para mim), no sentido de me testar para, então, fazer filmes narrativos, de ficção, de preferência sobre a cidade da Bahia – e muito poéticos.

- Se formos comparar seu filme com a sua produção musical, o que seria O Cinema Falado? O seu Araçá Azul?

- É um tanto como Araçá Azul. Mas é mais bem feito. Embora menos relevante dentro da história do cinema no Brasil.

- Você me disse que costuma mostrar grandes filmes aos seus filhos adolescentes. Eu gosto da ideia de apresentar filmes aos adolescentes, desempenhando um papel de formador do gosto pelo cinema. Qual o resultado prático desta experiência? Eles gostam de assistir a um filme de Billy Wilder ou isto se torna cada vez mais difícil na relação que a garotada de hoje tem com o cinema?

- Zeca viu Se Meu Apartamento Falasse (quase algemado) e me disse depois: “é perfeito”. Mas não quis mostrar à namorada. Tom não conseguiu ir até o fim. Quanto Mais Quente Melhor foi um pouco mais fácil. Vendo Apartamento, um amigo de Tom, da idade dele, perguntou assombrado com a perfeição: “esse filme foi feito para parecer que era nessa época ou é antigo mesmo?”. Ao ouvir que era antigo perdeu 60 por cento do interesse. Mas o mais impressionante é que eles não acham Chaplin imediatamente palatável – nem mesmo muito engraçado. Parece lento, e distante, qualquer coisa remota. Tom criou uma cumplicidade comigo de imitar o andar de Carlitos – e de vez em quando lembra uma ou outra cena para comentar. Mas nunca quis rever os filmes. Nunca riu das gags, nada. Mostrei Buster Keaton: a tempestade que derruba casas inteiras e leva Keaton a fazer as maiores acrobacias tem algum impacto sobre eles. Mas acham chato esperar até isso acontecer. Riem muito com essas comédias modernas americanas, muito grossas (que eles acham grossas e de baixa qualidade mas que sentem próximas de si).

Leia a 3ª parte – Final, clicando aqui.

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Categoria: CinemaCultura & Arte especial

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