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Onde Hitchcock errou a mão?

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CINEVIVENDO: O cinema por Caetano Veloso
Postado por Sílvio Osias em 06 de outubro de 2009 às 16:30

Caetao em entrevista

Nesta entrevisa inédita, Caetano fala sobre sua relação com o cinema como nunca falou antes (foto: Germanda Bronzeado)

Uma longa conversa com Caetano Veloso só sobre cinema. A ideia surgiu há vários anos quando li, na Cult, uma entrevista em que o compositor falava de literatura. Em julho último, na passagem do show Zii & Zie por João Pessoa, fiz a proposta e ele topou. Combinamos que seria por e-mail e aí está o resultado: Caetano Cinevivendo (o título foi sugerido por Jomard Muniz de Britto) – um retrato do cinéfilo tirado a partir das suas opiniões sobre filmes, cineastas, atores e atrizes. A conversa fala do amor de Caetano Veloso pelo cinema e da influência deste na formação de um dos grandes artistas do Brasil.

- Você costuma falar dos filmes de Fellini que viu na adolescência, ainda em Santo Amaro. A Estrada da Vida, sobretudo. Mas, e antes? Que lembranças você tem dos primeiros contatos com o cinema? Filmes de Tarzan, seriados? O que você viu na infância?

- A tela enorme do Cine Santo Amaro: seriados, Tarzan, sim; mas também filmes onde moças falavam de tratamento psicoterápico (era Ann Blyth, para ser mais preciso, que dizia que ia ao psicólogo falar sobre seus problemas); foram elas que me deram a idéia da psicanálise; desde então sonhei com um médico que só me ouvisse a descrição das angústias e me ajudasse. Jerry Lewis (que eu achava super sem-graça), Branca de Neve (deslumbrante até hoje), chanchadas da Atlântida (Carnaval no Fogo primeiro – mas há memória obscura de Esse Mundo é um Pandeiro – logo Aviso aos Navegantes), policiais chatos de capa de chuva, Françoise Arnoul com o peito de fora, Silvana Mangano em Arroz Amargo, o Baião de Anna, falta total de sintonia com meus colegas do ginásio que amavam os caubóis e vaiavam a moça que “só atrapalha” (eu me interessava pelo que acontecia com as moças, não me identificava com aqueles brutos a cavalo e odiava os interiores cobertos de lamê escuro, abajures sombrios e aquelas botas e botinas incômodas; pior do que tudo, as armas de fogo), além dos exteriores ermos (aprendi depois que as cidades americanas são, na maioria, assim mesmo; à época, eu pensava que era uma limitação da produção; não dava para fazer uma cidade como as cidades são de fato – isto é: como Santo Amaro – então eles punham uma casa aqui e outra a quilômetros de distância, sem nada no caminho exceto céu seco e uns mesmos picos de rocha quase cilíndricos). No entanto, mesmo esses filmes desconfortáveis me fascinavam e me mantinham sentado e calado até o fim: ver imagens grandes se movendo – pessoas, carros e animais correndo na pradaria, a mão de alguém, a luz da brasa do cigarro, a luz do sol – quase sempre em preto e branco mas às vezes miraculosamente em cores – era um êxtase.

Sansão e DalilaTudo isso era fruído, sem os incômodos dos faroestes, nos filmes de capa e espada e/ou de pirata. Erroll Flynn era um herói sem defeito. Lembro muito da cara de Patricia Medina. Também os filmes de “oriente”: O Ladrão de Bagdad, essas coisas. Turhan Bey e John Derek. Achávamos Sabu parecido com minha mãe. Um filme-marco de minha formação (não apenas de cinéfilo): Sansão e Dalila. Eu tinha 8 anos. Vi em Salvador, numa viagem para visitar minhas irmãs mais velhas que estudavam lá. No Cine Roma, na Cidade Baixa. Victor Mature me influenciou para sempre. Desenvolvi um controle do movimento das sobrancelhas que marcou meu caráter – e que ensinei a Bethânia. Talvez esse tenha sido o primeiro personagem ostensivamente masculino com que me identifiquei. Achei (e acho) Heddy Lamarr lindíssima, mas eu era Sansão. Na roda gigante do bairro de Roma, eu fantasiava que era Sansão e que vencia o exército dos filisteus com uma caveira de burro. Até hoje (apesar de achar a piada de Groucho contra o filme de DeMille uma obra prima – “recuso-me a ver um filme em que os peitos do mocinho são maiores do que os da mocinha” – e de achar tanto Victor quanto Heddy dois canastrões risíveis) acho Sansão e Dalila um grande filme, um deslumbramento com aqueles panos transparentes e aqueles diálogos sensacionais (que “cinedrama” fantástico!).

- Você parece ter sido muito precoce na percepção da música. Aos quatro anos, por exemplo, você sugeriu o nome da sua irmã, Maria Bethânia, por causa da música de Capiba que Nelson Gonçalves cantava. E o cinema? Em que momento o cinema deixou de ser apenas a diversão do menino que ia às matinês em Santo Amaro?

- É mais difícil imaginar-se fazendo um filme do que uma canção. Aos 8, Sansão e Dalila de DeMille já era essa passagem. Mas a visão de As Grandes Manobras me deu uma lição de forma que todas as agressões feitas a René Clair pelo grupo da Nouvelle Vague não abalaram. Revi faz um ano e achei igualmente perfeito. Quisera Truffaut… Agora, virada, virada mesmo, foi aos 15, com La Strada. Não era lição de forma. Ou não só. Era principalmente o filme como experiência de vida. Foi momentoso: chorei o dia todo, não quis comer, minha mãe ficou preocupada. Havia a cara de Giulietta Masina e a presença de Anthony Quinn. A figura de Richard Basehart e a música de Nino Rota. Aquele jeito de filme italiano que, mesmo dublado fora de sincronismo, parece trazer pessoas reais em momentos reais da vida para sua vida, pela exibição de suas imagens ampliadas e luminosas (aquela mulher que come macarrão na porta da casa, num casamento, e que demonstra necessidade sexual!…).

La StradaE, nesse mundo rente à terra, a fantasmagoria de Gelsomina e do Matto. Masina na porta da cadeia esperando Zampanó é documental e é sonho. Mas hoje eu gosto mais de Noites de Cabiria: Giulietta ali é, talvez pela única vez, uma atriz de verdade – e, de repente, das grandes. Não posso negar, no entanto, que, quando vi La Strada eu já pensava no cinema como algo a que eu queria dar minha contribuição pessoal: minha cabeça já esboçava crítica e realização.

- Tenho a impressão de que você pertence ao grupo dos espectadores que têm vínculos maiores com o cinema europeu do que com o americano. Mas sei da sua paixão também pela produção dos Estados Unidos. Que papel o cinema americano desempenhou na sua formação? E, num breve retrospecto, o que a gente poderia destacar ali na década de 50? Ford, Hitchcock, Wilder, Kazan, o jovem Kubrick? O que mais lhe impressiona no período?

Cantando na chuva- O DeMille crucial (e anterior aos europeísmos) já contrabalança sua suposição. Depois, além de piratas e espadachins – e moças com problemas amorosos – houve os musicais. Nada pode ser mais maravilhoso do que ter 14, 16 anos e entrar no Cine Subaé (esse era novo e tinha cinemascope!) para assistir A Roda da Fortuna, Um americano em Paris ou Cantando na Chuva. Como eu amei Cyd Charisse! E Leslie Caron e Audrey Hepburn! Como eu amei Gene Kelly (antes de Astaire, pois este, embora adorável e sempre impecável, parecia um velho sem músculos; sua superioridade, nascida da finura, vim a amar inteiramente um pouco mais tarde; tive de aprender a saber quão bom e bonito era; foi como passar a gostar de cerveja ou, bem depois, de queijo francês). Não posso negar que sentia a firmeza da pegada americana: eles criaram um naturalismo de convenção, mas dentro dele, não davam bola fora. É humilhante a confiança que os enquadramentos e os movimentos dos atores dentro do quadro transmitem nos filmes americanos. Entendo por que em Hollywood todos ficaram loucos ao ver Ladrões de Bicicleta e Roma Cidade Aberta (não apenas Ingrid Bergman pediu Rossellini em casamento sem conhecê-lo e casou-se com ele – mas até no The Player de Altman o filme de De Sica ainda ecoa como a resistência do frescor e da verdade contra o esquema industrial – embora tudo fosse dublado e um tanto sentimental demais). Bergman conta que ele começou estudando as regras de roteiro dos filmes de Hollywood, para dominá-las. Depois desrespeitou-as todas, mas elas não deixaram de ser, para ele, a base da construção de estruturas fílmicas. Augusto de Campos me disse que um amigo dele repetia que “cinema” é uma abreviatura de “cinema americano”. Mas é verdade que, da minha adolescência em diante, militei pelo cinema europeu. E somei a isso o cinema japonês (Kurosawa principalmente). Íamos, meus amigos e eu – notadamente Chico Motta, Antônio Manteiga e Dasinho – , ao cinema para deliberadamente rir de dramalhões de Douglas Sirk, como Imitação da Vida. Os espectadores adultos reagiam a esse pequeno bando de punks que gargalhavam quando Lana Turner fazia um gesto generoso para com sua empregada negra. Os cenários e as cores eram uma prefiguração da estética das novelas da Globo (cujos autores de fato frequentemente se inspiram em dramas americanos dos anos 40 e 50). E nosso grupo rebelde já lutava contra isso. O cabelo morto de tão tingido de Lana Turner (ou Doris Day – essa grande cantora que parecia um homem quando se movia e contracenava com Rock Hudson, que era super gay mas parecia muito mais macho do que Tony Curtis em qualquer situação), esse cabelo parado como um capacete de sisal, contrastava com a espontaneidade das caras lavadas de Sophia Loren ou Anna Magnani, Silvana Mangano ou mesmo Gina Lolobrigida. E logo chegaria Brigitte Bardot. Tínhamos Françoise Arnoul e Martine Carol. Mas Bardot transcendeu. Assim, conhecíamos as vulnerabilidades críticas de Hollywood, embora não deixássemos de sentir sua superioridade no atacado. Não posso deixar de frisar que, apesar de Jean Renoir ter sido cultuado pela turma da Nouvelle Vague em detrimento de René Clair , seus filmes muitas vezes me parecem precários. Muito sinceros e desarmados, humanamente atentos a seus personagens, eles parecem erráticos na trama e desestruturados nos enquadramentos – apesar do treinamento visual que a convivência com o pai lhe proporcionou, o fato é que muitos dos seus filmes têm um quê de amadorismo que não contribui apenas para eles irem aonde Casablanca ou All About Eve não vão: esse tom também concorre para criar desinteresse.

Alfred HitchcockConsiderando isso tudo, devo dizer que Hitchcock sempre me chegou bem. Eram simplesmente filmes hollywoodianos muito bons. Strangers on a Train é incrivelmente bom. North by Northwest é um espetáculo. E Janela Indiscreta. Ladrão de Casaca! E tudo o mais. Vi esses filmes como espectador não avisado pelos franceses. Mas Hitchcock era uma marca famosa mesmo antes disso. Depois deles (e do livro excepcional de Truffaut) vi The Shadow of a Doubt e fiquei maravilhado. Assim também muitos filmes dele, americanos e britânicos – a maioria na BBC, em Londres (onde, revendo o Imitação da Vida de Sirk, descobri seus grandes encantos – Godard tinha elogiado esse diretor e, de fato, A Time to Love and a Time to Die é um grande filme; e, em matéria de novela da Globo feita com precisão, densidade e elegância, Palavras ao Vento é obra-prima). Mas, em Santo Amaro, East of Eden, de Kazan, foi, para mim, algo mais importante, profundo e duradouro do que os Hitchcocks que vi lá e amei. Jo Van Fleet como a mãe cafetina, o pai obsessivo bíblico, o arquétipo Caim e Abel/Jacó e Esaú e, principalmente, as presenças de James Dean e Julie Harris, me arrebataram. Embora Marlon Brando tenha sido muito mais rico (como sempre) em Sindicato de Ladrões do que Dean chegaria a ser, Dean me apaixonou. Sindicato de Ladrões é um grande filme. Eva Marie Saint, Karl Malden, Marlon com os pombos na cobertura aberta do prédio de tijolos – tudo isso é inesquecível. James Dean me encantou também em Juventude Transviada – e o nome de Nicholas Ray tem de entrar na lista. Kubrick para mim nasceu no Clube de Cinema de Salvador: vi Glória Feita de Sangue e aprendi o nome desse que seria sempre um dos meus diretores favoritos. John Ford virou um nome para mim depois de Rastros de Ódio.

Leia a 2ª parte, clicando aqui.

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Comentários (3)
Categoria: CinemaCultura & Arte especialGeral

3 Comentários para “CINEVIVENDO: O cinema por Caetano Veloso”

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